Há pessoas que são assassinadas quando forçadas a existir. Às vezes, é melhor não deixar que as pessoas sejam seres vivos, mesmo que isso implique viver apenas das carícias proporcionadas pela parte mais cortante do ar. Não que Fio preferisse os sonhos às pessoas reais, mas ela achava que os sonhos possuíam uma conversa mais interessante e mãos mais cálidas. Sabia que era um erro confundi-los, algumas de suas amigas haviam perdido muitas lágrimas no choque com essa miragem. Fio quase nunca conseguia enxergar muita realidade nas pessoas reais. Geralmente, ficavam mal imaginadas, como romances fotocopiados e desbotados.

Tá faltando homem com pegada, homem que assuma seus afetos, homem que se apaixone, e que se dane o que os outros pensam.

Eu só queria te lembrar, que naquele tempo eu não podia fazer mais por nós, eu estava errada e você não tem que me perdoar. Mas também quero te mostrar, que existe um lado bom nessa história, tudo que ainda temos pra compartilhar e viver. 

Há uma teoria que diz que os seres humanos não são mais capazes de evoluir. Se isso for verdade, que animal estúpido o ser humano se tornou. Sem saber o que os controla, eles continuam com seus corpos apenas para satisfazer os desejos da carne. Você não os acha desprezíveis? Isso tudo é o que o ser humano é.”

- Kami( Serial Experiments Lain)

Mas deixa vir o que tiver de vir. Deixa o coração gritar e, depois dele, a tua boca, e, em seguida, teu corpo inteiro. ‘Amor, vem cá’. Eu iria. É fato que o erro aconteceu, mas a culpa não foi de apenas um, assim como a entrega. Mas deixa cair o que tiver de cair. Deixa cair os ombros e, depois deles, a tua blusa, e, logo depois, teus membros todos repousados na minha cama. ‘Fica até terminar a chuva’. Eu ficaria. Teu corpo espalhado no colchão de um jeito aberto, convidativo, e eu nem te tocaria - olharia de longe o teu receio de que tudo de errado de novo. Sempre deu, não é? Éramos aquela soma de todos os desastres que sempre resultava num saldo negativo. Mas deixa assentar o que tiver de assentar. Deixa repousar tua cabeça perto do meu pescoço, teus dedos nas minhas costas a desenhar formas sem tinta, teus lábios se movendo sem som. Deixa esquecer a nossa loucura e a nossa fuga. Voltemos. Fiquemos. Deixa vir, cair e assentar todas as coisas. Depois de toda essa ventania, deve ter sobrado alguma coisa ainda inteira, alguma parte de nós intacta, alguma promessa a ser cumprida, um desejo ainda calado, ou mesmo que seja essa dor tão igual em nossos peitos. Eu devia saber que esse tal amor doía, mas agora já foi.